E ele estava deitado na pradaria,observando o céu como quem não tem mais nada pra fazer,e ele não tinha mesmo,era um desocupado e nada mais.
Ficava vendo as nuvens passarem e só ia embora à noitinha,mas sempre voltava antes do sol nascer.
- Sabe menino - disse uma moça,apoiada na cerca de madeira velha,observando o garoto que estava deitado encarando o céu - você deveria fazer algo produtivo,porque do céu só caí a chuva!
- Não minha senhora - disse ele,sem desviar o olhar das nuvens - cai também granizo sabe,e uma vez,diz meu avô,que já caiu neve.Ele jura de pé junto.Não é só chuva não.
- Ora você me entendeu! - disse ela batendo o pé no chão fazendo levantar poeira - Você não ganha nada ficando parado,como vai seguir a estrada?
- Não minha senhora - ele repetiu,sem tirar o olhar do céu - Não há como seguir a estrada não,ela não vai nem vem,ela fica paradinha.Não dá pra seguir a estrada não.
- Ora seu menino insolente! - ela deu um soco na cerca,fazendo-a estremecer - Ficando parado aqui me dando respostas idiotas,assim não ganha nada!
- Não minha senhora,ganho sim - disse ele ainda sem olhar a moça - Sabe,de vez em quando ganho um sorriso,ganho um papo bom,até um amigo.Não minha senhora,eu ganho algo sim.
- Ah mas isso não é nada! - ela deu um sorrisinho de deboche olhando para o garotinho - Quem precisa de um sorriso hoje em dia?Isso não paga o pão nem o leite!
- Não minha senhora - ele disse novamente ainda sem olhar para a moça,observando o céu - Sabe,uma vez minha irmãzinha pagou um pão com sorriso.Menina esperta,e nem fez nada,é bom coração,simples assim.Foi só ajudar o velho Juca que ele deu o pão e o leite,e ela devolveu um sorriso.Não minha senhora,dá sim,dá sim...
- Você me entendeu moleque - disse ela se desencostando da cerca - Você não faz nada,todo mundo sabe disso.
- Não minha senhora,todo mundo não,só o povo daqui da cidade.Cidade pequena.Não minha senhora,não é todo mundo não.
- Você fica ai deitado o dia inteiro por vagabundagem em vez de ajudar seu pai no campo,tirar o leite e tocar o gado.Qual teu problema moleque?Tem medo de trabalhar?
- Não minha senhora - ele repetiu ainda sem olhar a moça - Não tenho medo não,só vou cumprir minha promessa.Não minha senhora,você esta enganada.
- Promessa?Mas que promessa?
- Ah minha senhora,nada demais - ele se mexeu de leve ainda observando o céu - coisa besta,promessa de moleque insolente.
- Pois me diga agora! - ele se mexeu novamente.
- Promete não contar pra ninguém?
- Diga logo! - ele olhou para a moça pela primeira vez,com seus olhos verdes,brilhantes e infantis.
- Prometi continuar o serviço do meu avô,ele sempre vinha aqui e ficava o dia inteiro olhando o céu,só pra arrancar um sorriso do povo.Quando ele morreu prometi que ia terminar o serviço pra ele. - então ele sorriu e voltou a olhar o céu.
- Mas por que fazer isso?O que se ganha?
- Se ganha sorrisos minha senhora,e eu adoro sorrisos.
- Você faz isso com todo mundo que passa aqui e fala com você? - ele mexeu os ombros com ar de indiferença - E funciona?Eles sempre sorriem? - ele confirmou com a cabeça.
- Sabe moça,coisa difícil essa.
- Que coisa?
- Arrancar o sorriso teu,agora me deixou curioso,quando vai sorrir pra mim? - ele encarou a moça.Ambos ficaram se olhando por um tempo,até que a moça quebrou o silêncio.
- Moleque idiota - então ela sorriu,virou as costas e foi embora.Não estava muito longe,quando o menino gritou :
- Sorriso bonito o seu,sabe moça,o mais bonito que já vi até agora!
E ele ficou ali deitado até a noitinha,levantou-se e foi embora,e a moça até hoje passa pela mesma pradaria e sorri,imaginando o menininho ali deitado,tentando arrancar sorrisos.
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